segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Branco

Cocaína meu amor,
A você toda minha fúria
E minha vontade de ficar só,
Não há alimento para minha fome
E ninguém moverá para mim
O chumbo da minha razão

Deusa Branca do Tédio e dos dentes trincados
Acaricia com sua tubulação de mistérios bem acordados
Minha cabeça de pombo e meu cobertor
Sei que anuncia a Água Superior
E a ovulação da Senhora árabe

Cocaína meu amor,
Estou completamente pirado
Pairando sobre a tremura fundamental
Arremessado no oco da alma
Esperando de ti a Brancura do Fogo
Para que eu abocanhe de vez o ar
E continue pedindo mais

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Mulher da Terra - Em louvor à Spinoza

Tradução para a linguagem humana da intuição mágica de Mario Mercier. "Sinto o espírito da Terra afluir em mim...":

"Sou a Mulher da Terra, cavalgo o dragão que vive no fundo. O que vês em minha superfície não passa de um aspecto de mim mesma. Faço-me crer pobre e dura, cruel e distante, possessiva e voraz, mas aos que se entregam a mim sem reservas, com todo o amor, dou meu leite fluídico mesclado de raios lunares e solares. Respira-me quando exalo meu fôlego, pois ele é habitado por forças de um poder inimaginável. Concedo inspiração, ciência e oráculos, pois sou impregnada dos eflúvios vibratórios dos planetas e das estrelas e a água é o meu melhor meio. Nela se inscreve o devir celeste. Mas o homem não me honra mais. Ele me corrói, ele me saqueia, ele me esbulha, ele se tornou meu parasita. Com ele, já não posso me comunicar como fazia antes. No entanto, seu papel é o de me purificar, o que faz sem o saber neste momento, pois livra-me de meu excesso de metal e de minhas águas mortas, que ele queima. Mas ele não exorcizou o que tirou de mim, e libertou os demônios da matéria que eu guardava em meu ventre. São eles que presidem a nova obra de destruição. Cada vez mais encarnam-se em formas humanas. Cada vez mais vou entrar num período de convulsões, pois a raça branca, raça do metal, deve, por sua vez, desaparecer. O amanhã, verá outras mutações à beira das quais estás sem que o saibas."

sábado, 12 de junho de 2010

A carne mínima do mundo


Ótica dos pavimentos

A cidade é um buraco na minha boca
Aqui o faquir celebra o Giro
Não moverei um palito pelo sorriso geral da nação
e pelo sucesso de suas famílias
Eu não estou nem aí para os capangas do fim do mundo
e seus televisores de muitas polegadas
A verdade do homem se tornou vã
Os seres humanos festejam a sua desgraça
Não moverei um palito para salvar da fúria
os que promovem os negócios e as passeatas
Eu quero ser o único sobrevivente
A bandeira erguida sobre o abismo
O anjo perdido e nu na terra de Amon-Ha
Nu para começar tudo de novo
Nu para rever o nascimento dos dias e a
comunhão das flores
Nu para sacar a revolta dos silenciosos e me deitar
na trincheira dos que ficaram sem a bússola
Pois eu sei de onde a caravana ressurgirá
A caravana ressurgirá do nada
De onde ela sempre ressurgiu
Pois a verdadeira batalha esta sempre acontecendo
O grande verme arisco remexe no túmulo
Com suas toneladas de anelídeos indomáveis
Arremessa contra os governos seu bafo úmido de pura resina
Seu rabo carnudo irá recompor com o fogo
a ordem natural das coisas:

Meu amor, quando dançamos na noite
O mundo chega ao maravilhoso colapso.


Canção mínima

De onde emana a luz
que faz a lua vomitar tapetes?
Quero tocar a ferida do mosquito
mas tenho os dedos em forma
de água.
Meu Deus, atrás do alfinete
só há lugar para o punhal!

Não é amor o que brota das coisas,
é sangue. E o pensamento que se equivoca
a socorrer a lágrima quente.

Mil formigas que mastigam
(com a boca da aurora)
o elemento condutor.


Canto de oferta

Isto não é um assalto
Isto é a Vida, a pior bactéria de todas, o Lustre Central
Ah há há! Ela vem de sobretudo negro no meio
Dos documentos do chefe, deixe que a barba cresça
E meça o tamanho
Do Abismo.

Esquadrilhaa!
A Camuflada
Porção de Tempo sem borda
Uma morte para a Mãe Sem-Boca
E a língua se retorce
Toda

Pele muito ruim, Ruga
Só te encontro em uma encruzilhada
Uma garrafa de pinga
E sua risada debochada
Te ofereço duas faces
Em troca do seu
Bafo

domingo, 2 de maio de 2010

Em louvor ao Santo Daime

Não devemos esperar nada do discurso publicitário. A informação é um meio de fixar um ponto de vista determinado sobre um aspecto da realidade. Ela opera um recorte do múltiplo. Uma forma de fascismo. Uma forma de positivismo. Ela é o ápice da leitura factual da realidade. Uma máquina de produzir fatos.

A cultura do espetáculo não para. Nela o discurso é como e engenharia civil: distribui um acontecimento conduzindo seus elementos pela tubulação da moral, pelos muros e pavimentos dos padrões estéticos e comportamentais, quadriculando o espaço até que o acontecimento, bem distribuído, não encontre outra forma senão a do espetáculo - e mais precisamente, a forma do espetáculo moral (o absurdo moral). Vivemos da falência de nossos Deuses. E de suas cinzas construímos o grande Deus-Vedete contemporâneo. A publicidade como a nova Igreja. Pasolini.


Numa edição recente da Revista Veja:

"Na semana passada, uma entidade da Bahia chamada Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos entrou com uma petição no Supremo Tribunal Federal pedindo a liberação da maconha "para uso terapêutico e religioso". Caso a petição seja aceita, são grandes as chances de outras drogas entrarem para o rol de "sagradas". Tolerância em excesso, combinada com negligência na mesma medida e uma boa dose de vulnerabilidade, física ou emocional das partes envolvidas: eis uma boa receita para construir uma tragédia."

"Uma droga não deixa de ser droga se for consumida no meio de um ritual. A substância é lícita ou não é."

A visão de mundo ocidental está enraizada em um preconceito ontológico. É o preconceito da Forma. Define-se uma Forma, quer dizer, estabelece-se um modelo a partir do real e julga-se a totalidade das coisas a partir desse modelo. Isso se dá em todas as esferas: ciência, cosmologia, ética, religião, etc. Em todos os sentidos o real é remetido a um referencial extrínseco que teria, no final das contas, mais realidade que o próprio real. Ex: Pensa-se a conduta do homem a partir de um modelo extrínseco baseado na ideia fictícia de um homem moralmente perfeito, cuja autonomia da consciência o colocaria livre de toda "tentação".

Pensando dessa maneira, erguendo um aspecto relativo da realidade e elevando-o a categoria de Forma, é necessário que uma parte da realidade (da natureza) apareça como resto: se a Forma tem sua origem na propria realidade, num valor relativo, num juízo ou um estado de coisas particulares, ela certamente não dá conta de toda a realidade. A Realidade sempre ultrapassa a Forma, já que a Forma nada mais é que um aspecto da realidade elevado a uma falsa potência ontológica. Em outras palavras, a Forma nada mais é do que a pretenção do Real, que ao sair de si mesmo através de indivíduos, pontos de vistas, valores, - se prende nesses pontos de vistas e os investe como realidade primeira e metafísica. Tendo sido elevado a nível transcendental, a Forma agora encerra a verdade em um limite, e necessariamente exclui tudo aquilo que a ela se opõe. Como ela mesma é um aspecto empírico da realidade, ou seja, um aspecto que se opõe a outros aspectos, ela só consegue se elevar àquela altura metafísica traçando uma vasta vala comum para o pensamento e para o desejo, onde tudo o que a ela se opõe será enterrado sob o título de "não-ser", de "pecado", de "loucura" ou qualquer outro nome que implique em um estatuto incompleto e impuro de "ser". Para todo Deus moral haverá necessariamente um inferno, poço para depósito das forças reais negadas pela Forma.

Porém, apesar da tentativa de contenção por parte da Forma, a Realidade jamais cessa seu movimento criativo. A Forma se destaca da natureza e tenta transcendê-la, porém é a natureza que a ultrapassa com sua incômoda e intolerante dinâmica de produção de si a partir de si mesma. Esse movimento criativo e original da natureza é visto pela Forma como "rebeldia", como "transgreção". Eis a grande reviravolta da moral: a potência criativa da natureza, aquilo pelo que tudo é, o grande Tao, passa a ser vista como um "desvio", como um desvio do verdadeiro ser criado retroativamente, a Forma. Assim foi que a serpente, fonte da vida, se tornou a fonte do "mal", e assim se originaram todas as noções como pecado, loucura, indescência, imoral, fora-da-lei, etc. A Natureza como o grande Tao Fora-da-Lei.

Pois bem, o discurso moral implícito na matéria da revista Veja está enraizado profundamente nestes preconceitos. Primeiro pressupõe-se que a percepção ordinária que temos da realidade constitua a realidade em si. Logo, todo desvio perceptivo é entendido como uma alucinação. Estabelecemos nossa percepção diária como realidade factual e julgamos os estados alterados como desvios e alucinações. Segundo, deriva-se dessa realidade percebida ordinariamente a a existencia de um sujeito imparcial e neutro, que seria capaz de agir independente das pulsões que o tomam no mundo real. Esse sujeito, dotado de livre-arbítrio, seria capaz de agir responsavelmente e desinteressadamente na medida em que não possuisse a "boa dose de vulnerabilidade, física ou emocional". Enfim, acredita-se que um sujeito pode se fechar e deixar de ser vulnerável aos impulsos que constituem o mundo onde estamos. Por último julgam o restante da natureza a partir das relações engendradas por essas duas crenças, a facticidade do real e a neutralidade do sujeito. Diz-se, então, das substâncias que alteram a percepção ordinária e que, por isso, influenciam o campo de ação do sujeito, que são substâncias "ilícitas". A história está cheia dessas substâncias que são vistas como causas de comportamentos desviantes: o Index católico é um grande exemplo desse tipo de juízo ao mesmo tempo em que mostra como livros podem funcionar como potentes substâncias "psicoativas".

A noção de "droga" implica necessariamente esse jogo de seleção sobre o real. Uma droga é um substância que perturba a retidão estabelecida pelo senso-comum, pelo bom-senso, pela lei e pela moral. Diferentemente, a noção de "sagrado", quando bem compreendida, implica em uma abertura do real para uma positivação instantânea do seu movimento. É sagrado aquilo no qual ou do qual podemos sentir o fluxo da vida, o Tao. O sagrado implica antes a informalidade na coisa do que a formalização de uma lei. "O Tao que pode ser dito, não é o verdadeiro Tao". Sacralizamos algo quando extraímos a afirmação e a beatitude inerente ao fenômeno. Por isso, ontologicamente, tudo é sagrado, desde que compreendido em sua mútua afirmação. É claro então que não é a droga que entra para o rol das "substâncias sagradas". Foram as substâncias sagradas - e sagradas porque nos permitem ampliar o campo perceptivo ordinário - que foram inseridas no rol das coisas proibidas, pois seu efeito de ampliação consciencial é necessariamente maléfico para uma sociedade baseada da Forma e no policiamento.

De início não há droga. A droga é um recorte, uma reinterpretação de uma substância sacralizada por seu poder de ampliação perceptiva. Esta interpretação recortada baseia-se nas falsas interpretações da realidade e do sujeito que comentamos acima. Diante do modelo europeu do homem-trabalhador-cidadão-seguidor de leis, é claro que as substâncias psicoativas só poderiam ser interpretadas como desviantes e como causas de comportamentos maléficos. Mas isso tudo com a condição de que não compreendamos que o malefício real advém não com a substância desviante, mas com a instauração de uma retidão sobre a natureza espontânea e pulsional do Tao. Criamos o mal ao decidir o que é o bem. Ou melhor, a natureza se encarrega de produzir o mal tão logo tratamos de chamar de "bem" somente aquela parcela da realidade que nos interessa psicologicamente e moralmente. O mal é como um efeito colateral do recorte que fazemos sobre o Tao. Nesse sentido a noção de beatitude é superior à noção moral de "bem", pois a beatitude implica um juízo para além do bem e do mal, uma sacralização do real.

Logo, não é que a droga deixaria de ser ilícita ao ser consumida no meio de um ritual. É que o ritual se torna uma droga, ou seja, algo ilícito, desde que coloque os sujeitos além das percepções e valores estabelecidos pela sociedade detentora da Forma. Tudo é ilícito desde que tire o homem ocidental do confinamento social e psicológico que, por conveniência do sistema, é colocado desde seu nascimento.

Diante destas considerações as causas de qualquer "tragédia" devem ser procuradas não na substância proibida, mas, entre outras coisas, na ignorância gerada pelo mecanismo da Forma. Pois de tudo o que não devemos nos aproximar segundo a moral, nos resta o desconhecimento, a imprudência no uso e o vício.

Não há o "problema das drogas". Há o "problema moral".

"Tudo o que vive é sagrado".

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Magia Negra - Em louvor ao santo Kieekergard

- Ao anunciar as notícias sobre os acontecimentos no Haiti a vinheta de um dos telejornais do país, depois de criar um efeito de zoom parecido com o das chamadas das novelas, fecha a cena na imagem de um membro de uma criança sob os escombros. A imagem desfaz o zoom e se fixa atrás dos âncoras que transmitem a notícia com expressões que misturam inconformismo formal e hipocrisia.

- Um dos Jornais do país traz entre a imagem de uma senhora sobrevivente e a de um homem caminhando entre corpos no chão a seguinte composição de palavras (em letra bem grande): HORROR, FOME E REVOLTA, quando poderia trazer um canto e invocar um rito ao invés de um espetáculo.

- Ao abrir a obra de Murilo Mendes como um livro sagrado encontro o seguinte texto que deveria ser impresso na primeira página de todos os jornais:

Cântico

Homens irmãos de todos os tempos e países,
Formamos juntos um vasto Corpo
Estendido na história através das gerações.

É no partir do pão que reconhecemos o Senhor,
Na fração da amizade, dos bens mútuos, das palavras de consolo,
Na fração do ritmo contínuo que vem desde o princípio,
Na fração das palavras do poeta, das danças do dançarino, do canto do músico.

É a nós, guias, que compete abrir as portas das prisões,
É a nós que compete transformar as espadas em arados,
É a nós que compete fazer diminuir
O temor e o tremor espalhados pelo mundo.


- Numa nota um Jornal faz a seguinte comparação: "Diplomatas brasileiros criticaram a timidez das doações de países ricos, sobretudo os europeus. A Alemanha, por exemplo, enviou US$ 2 milhões, o dobro do casal de atores Brad Pitt e Angelina Jolie."

- Obama anuncia US$ 100 milhões em ajuda. Um quadro diz "O socorro em números" e lista os países e suas contribuições ao governo do Haiti. A lista obedece a forma de um ranking.

- Bill Clinton, em um texto intitulado "O que podemos fazer para ajudar", finaliza da seguinte forma: "Nos proximos dias, historias de perdas e triunfos do espírito humano serão contadas. Os haitianos vão nos pedir ajuda - não apenas para restaurar o Haiti, mas para ajudar a torná-lo uma nação mais forte e segura, como sempre desejou e mereceu seu povo". No texto Clinton dedica um parágrafo para falar de suas relações diplomáticas com o Haiti (ajudou a conduzir um presidente ao cargo, implementou um plano de desenvolvimento por investimento privado, etc) inflando seu ego e sua auto-importância.

- Google (site onde se pode ver quantas vezes quiser as cenas chocantes dos acontecimentos e ouvir suas trilhas sonoras) e Walt Disney (empresa que veiculou os valores da vida americana através da magia negra nos desenhos animados) também ofereceram recursos aos haitianos.

- "Lula quer adotar o Haiti".

- Os noticiários tentam de toda maneira (com gestos, impressões faciais, músicas, manipulação de imagens com legendas) criar um epísódio a mais destacando como "cenas de um próximo capítulo" a declaração feita pelo ministro da defesa de que falar em "desaparecidos" na situação do Haiti é um eufemismo. Um dos âncoras dos jornais disse que quer ouvir de um especialista se isso procede, pois precisa saber se deve ou não manter suas esperanças. Depois disso a apresentadora chamou os comerciais.

- Não sabemos em que as imagens e a montagem elaboradas pela televisão podem produzir um efeito positivo, de expanção e fortificação, com relação aos acontecimentos no Haiti. Pensemos no que realmente acontece conosco durante e depois de vermos as imagens. Estamos mais próximos da comunhão proposta por Murilo Mendes ou da comunhão erguida em torno de um filme de ação hollywoodiano (2012, por exemplo)? Comunhão ou espetáculo? Realidade ou novela?

- Contra o que eles, reporteres, governantes, ou mesmo os indivíduos afetados pelo terremoto, estão realmente revoltados? Contra o terremoto?

- Os jornais não trazem uma linha poética se quer. Nenhuma palavra tonificante, nenhuma sensação de abismo, nenhuma oração real pelos homens, por sua miséria e por sua condição. Somente os lamentos de esperança e o espetáculo, aquelas duas doenças da alma.

- Em 1963 do Kali Yuga, Bob Dylan cantou: "the answer my friend, is blowin in the wind".

Alucinação número um

Os animais humanos que habitam a região conhecida como Haiti levantariam de suas consciências impotentes caminhariam entre os escombros e admirariam os pontudos cotovelos que germinam como flores empoeiradas no abismo da desgraça. O silêncio das bocas entreabertas até a eternidade e o encavalamento das dores fundariam um tempo semelhante ao mormaço inicial. Não há mais sandalinhas de crianças desaparecidas não há mais os porta-retratos não há mais a menininha boazinha da escola nem a mãe batalhadora que amava seus filhos. Os animais humanos que habitam a região conhecida por Haiti rodopiariam pelas almas desencarnadas como dervixes desdentados como Jó à flor da pele como Estamira comendo lixo como Alen Ginsberg se masturbando como budistas a beira da loucura. E admirariam os sorrisos congelados nas cabeças sem vida da Vala Comum. E recusariam com vigor as ajudas milhonárias dos governos. E ameaçariam ferozmente as câmeras de tv e seus repórteres da magia negra. E aguardariam a decadência dos soldados que acreditam dar o melhor de si. E se amontoariam na glória metálica da tecnologia de ponta. E se entupiriam de silício e condutores de alta tensão. E se ajoelhariam como montanhas que tombam diante do espetáculo de corpos mal cozidos: Ó Deus Ó Boca que Tudo Engole Ó Káli A Deusa Negra com a Língua de fora Ó Magnífico Motor da Terra arremessa sua fúria contra as cabeças dos nossos parentes sacia sua fome com a matéria das nossas memórias treme o seu corpo inteiro e renova a nossa desgraça com seu ímpeto de soluço. Ó Terremoto Deus chifrudo da Partida sem Cais renova o sangue da Terra nos fazendo admitir a Sua Misteriosa e Indiscutível Vontade. Jamais houve desespero e impotência no reino da Terra.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Convocação dos homens

Esta é a mensagem subterrânea

para aqueles que viram o miolo da rosa.

O grande tratado do amor não será

propriedade dos homens.


Até agora movemos sozinhos o semblante do Asno

e a cabeça milimétrica da formiga.

Fixamos o ponto primordial invocando

a tromba do elefante.

Abandonamos os planos do mundo moderno.

Esquecemos a dedicação dos homens de bem

e estamos bem satisfeitos com a desordem pública.

A dedicação das pessoas não nos serve de nada.

Alimentam-se cães, salvam-se as baleias,

precisa-se de carinho.

Apenas um pequeno ruído nos inspira confiança.

Não sou capaz de dizer de onde vem.

A sonda de Deus varre o mundo através dos nossos olhos.

Em nossas cabeças o ímpeto de Deus vai e vem.


Recebemos o dom de ver no vão das coisas

criaturas que choram e reluzem como água.

Mas essa visão é a lágrima de todas as coisas.

Seu sangue de Drago ou sua resina pura.

A matéria que não se comunica

nem se aponta com o dedo.

Porque a parte dura do mundo

é como o Nada.


Estamos à procura de homens com a couraça natural.

Homens que não estão nem aí.

Aqueles que desistiram do trabalho e da família

para buscar um lugar abandonado

onde pudessem ler Poesia.

Cada gesto de nossos homens deverá ser um ritual.

Uma mão que leva o cigarro até a boca

deve ser um eixo que calibra o universo.

Uma pomba fecundará o crepúsculo

para que a tempestade assuma os cabelos de

nossas mulheres.


Porque, meus amigos, há uma nervura fundamental

que nos exige disciplina e abandono.

No cerne das coisas existe o momento do salto.

A morte arremessa o vácuo até o limite da palavra

e nenhuma esperança pode esconder o ânimo da Besta.


Esta é a mensagem subterrânea

para aqueles que viram os galopes do Galo.

Tomai todos do vinho que aflora na pele

e comei do Peixe que se multiplica.


O que nós vimos foi a estampa divina.

O velho Alá com seus movimentos de cobra.

Aquele que veio mas já estava aí.

E forneceu-nos o mistério de tudo,

na velocidade desesperadora

dos dias.